A trabalhar no Dia do Trabalhador?

Os feriados e os fins de semana são dias ideais para colocarmos algum trabalho em dia, especialmente no que toca aos e-mails e à parte mais burocrática. Não estou com isto a advogar que trabalhemos 365 dias por ano, muito pelo contrário. Mas, como trabalhadores independentes, podemos muito bem escolher as nossas folgas como melhor entendemos. (Pois, este post não é para os nossos amigos tradutores institucionais e inhouse, desculpem! Vão lá gozar o feriado que bem merecem!)

Assim, hoje deixo-vos duas dicas para usarem hoje:

1. O que posso fazer hoje que tenha um verdadeiro impacto na minha vida? » Adormeci e acordei com esta pergunta. Há dias para passarmos horas a fio na praia na conversa com os amigos e há fins de semana em que dançamos até o sol nascer (sim, há mesmo!), mas também há dias que podem ter um impacto profundo no nosso futuro. Estes são os dias nos quais escrevemos 15 páginas da tese, marcamos uma viagem de sonho ou, igualmente importante, enviamos todas as faturas em atraso. O que eu posso fazer hoje que tenha um verdadeiro impacto na minha vida? Hoje é um dia desses e de nada menos do que isso.

2015-04-24 09.07.29

Fonte: Gapingvoid

2. Com respeito pelo descanso dos outros. » Eu estou a trabalhar o que implica responder a e-mails, enviar faturas, fazer investigação (o que implica mais e-mails), mas a maior parte das pessoas de todo o mundo está a descansar. Acredito no respeito pelo descanso dos outros e na promoção de uma cultura não intrusiva nesse descanso, pelo que uso o Boomerang. O que é isto? É uma app maravilhosa que me permite programar a data e hora de saída dos e-mails da minha caixa de e-mail. Ou seja, eu vou passar o dia a escrever e-mails e a enviá-los, mas na prática os meus colegas só os recebem na segunda-feira.

Bom feriado!

Sobre macacos e amendoins, por Karolien van Eck

Hoje vou falar de valor. Não propriamente de valores (plural) nem de quantias exatas, mas de valor. Do valor do nosso trabalho como – no meu caso – tradutora jurídica freelance, num mercado livre. “Mercado”, porque é regido pela lei da procura e da oferta, em que o preço é estabelecido nesse mesmo contexto. “Livre”, porque não tenho proteção profissional, já que “tradutor” não é uma profissão protegida por qualquer legislação.

Entre muitas profissões, a minha é uma das menos bem vistas e, ainda menos, entendidas. Ah, pois, estrangeira, não é? Insinuando que se ser estrangeiro é um requisito para se ser tradutor. Ser tradutor é ter uma profissão exigente, interessante e versátil. Eu e os meus colegas somos especialistas, não apenas pelo facto de dominarmos muito bem, no mínimo, duas línguas, mas também no que respeita aos setores de mercado em que prestamos os nossos serviços.

Os meus colegas especialistas em tradução na área da medicina dispõem de conhecimentos específicos e especializados que lhes permitem entender textos e conteúdos médicos, decifrar os segredos daquilo que foi reduzido a escrito, bem como as respetivas implicações, podendo de seguida reproduzir esta mensagem complexa numa outra língua, tendo em conta os contextos e as realidades existentes para os falantes dessa outra língua e a respetiva cultura.

Os colegas tradutores técnicos são, por sua vez, logicamente, especialistas na linguagem e nos conteúdos dos textos (técnicos) que aceitam para tradução. E depois, em todas as áreas, há sempre muitos subdomínios.

Eu e os meus colegas prestamos serviços, não vendemos objetos. O cliente usufrui do nosso conhecimento, embora o produto que receba seja “apenas” um papel (e, no caso dos intérpretes, nem isso!). Portanto, não é a qualidade do papel que determina o preço, é a qualidade daquilo que ele contém. Agora, como podemos valorizar e fazer valer esta mensagem, já que, como já disse, “tradutor” não é uma profissão protegida?

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Alguns colegas pensam que o valor do nosso trabalho é determinado por aquilo que o cliente quer pagar. Têm dificuldade em distinguir “aquilo que o trabalho vale” de “aquilo que o cliente quer pagar”. Mas temos de ser nós a determinar aquilo que valemos, de acordo com, por um lado, o que temos para oferecer (conhecimento muito especializado, qualidade, rapidez, …) e, por outro lado, aquilo que — simplesmente — queremos receber na nossa conta no final do mês.

Temos de ter em mente que, por sermos freelancer, aquilo que ganhamos com um trabalho que nos é adjudicado tem de recompensar muito mais do que o tempo que gastámos na respetiva tradução. Pois, primeiro, tivemos de chegar ao cliente, convencê-lo a adjudicar-nos o trabalho, fazer um orçamento, colocar questões, fazer pesquisa, etc. E depois do trabalho entregue, fazer toda a parte financeira, até efetivamente receber e, de seguida, ainda declarar os nossos rendimentos.

Além disso, temos de considerar que há muitos dias num mês (e num ano) que não trabalhamos; as horas de descanso são para se respeitar, pois uma semana de trabalho habitual não tem mais de 40 horas, e há as férias em que temos de pensar, como toda a gente.

Às vezes não podemos trabalhar, porque adoecemos ou temos familiares que precisam do nosso apoio e presença físicos. E ainda não falei das despesas extras que temos, por sermos freelancer, por exemplo, com seguros (alguns obrigatórios) e com uma maneira de providenciar o nosso futuro (pois um dia também queremos gozar de uma reforma decente).

Normalmente considera-se que um terço das horas que trabalhamos como (tradutor) freelancer, não são horas faturáveis. Assim sendo, temos de ganhar muito mais nas horas faturáveis!

Muitos colegas no início da carreira pensam que o trabalho deles vale menos do que o trabalho de um tradutor experiente. Não quero discutir se, de facto, vale mais ou menos, mas para o cliente (exigente) o bom resultado deveria ter o mesmo valor. Eu aconselho os meus colegas iniciantes a praticar preços compatíveis com os preços de colegas mais experientes, e investir mais no resultado do trabalho. Por exemplo, através de uma revisão mais rigorosa por um colega mais experiente e/ou um especialista na área. Podem procurar estabelecer parcerias ou um “mentorado” como acontece em muitas profissões.

Portanto, serão os clientes e o mercado em que operamos que devem determinar o valor do nosso trabalho? Não! Somos nós que o devemos determinar e os clientes que “não querem pagar mais que X”, para mim, não são clientes sérios. A qualidade tem um preço. É como se diz em inglês: “if you pay peanuts, you get monkeys”. A última vez que me vi no espelho, ainda não tinha chegado a tanto…

Nasceu uma associação de tradução — A APTRAD

Em fevereiro nasceu uma nova associação de tradução, a APTRAD, fruto dos esforços de uma equipa de tradutores e dando voz a um sonho antigo da Paula Pinto Ribeiro. Eu pus-me à conversa com a Paula e o resultado é o abaixo.

Valdez: Há quanto tempo tens este sonho?

Paula Pinto Ribeiro: Este sonho aparece quase logo que iniciei o meu percurso como tradutora (1997) e descobri que, para fazer parte de uma Associação, era necessário ter obras publicadas (o que não era o meu caso, dado ser tradutora técnica). Sempre acreditei que as Associações devem ser o porto de abrigo dos profissionais que a integram… e senti que, em Portugal, esse porto de abrigo não existia – quer para quem estava na profissão, quer para quem chegava de novo.

Valdez: Porquê uma associação?

Paula Pinto Ribeiro: A Associação surge porque a Ordem é mais demorada. O sonho é a Ordem Portuguesa de Tradutores e Intérpretes! Senti, no entanto que os passos devem ser dados pisando terra firme debaixo dos pés! Não sou de deixar obras pelo meio e uma Ordem neste momento é um objetivo mais distante e mais moroso de concretizar.

Valdez: O que podemos esperar da associação?

Paula Pinto Ribeiro: Como dizemos no nosso website: Temos como Missão – Valorizar, credibilizar, promover e disciplinar as profissões de tradutor e intérprete, de forma ativa e inovadora.

A nossa Visão – Contribuir para o desenvolvimento profissional dos associados, apoiar a integração no mercado de trabalho dos estudantes de tradução e constituir o principal ponto de encontro no sector.

Apoiados em Valores como – Profissionalismo, inovação, dinamismo, ética, dedicação, confidencialidade, disponibilidade.

Os nossos objetivos:

• promover os mais elevados padrões de qualidade na profissão

• dinamizar e promover diversos eventos nacionais e internacionais

• disponibilizar apoio informático, jurídico e fiscal

• orientar todos aqueles que iniciam o seu percurso profissional

• aconselhar os profissionais e consumidores de serviços linguísticos

• ser a fonte de informação privilegiada sobre os serviços de tradução e interpretação

Valdez: E como nos podemos juntar ao teu sonho?

Paula Pinto Ribeiro: Podem juntar-se a nós todos os profissionais da área da tradução e da interpretação que pretendam contribuir para a credibilização e valorização da nossa profissão, com a língua Portuguesa como uma das suas línguas de trabalho. O nosso website tem disponível um formulário de inscrição online e os nossos contactos estão disponíveis para qualquer esclarecimento adicional que qualquer futuro associado necessite. Pretendemos ser uma Associação próxima e acessível aos profissionais de tradução e interpretação.

Uma espécie em extinção — Um post em três tempos

Primeiro tempo

Não estou na baixa de Lisboa a escrever-vos de um café simpático. Desta vez, não. A minha vista é o rio Douro que apesar de hoje estar cinzento é um dos cenários mais bonitos do nosso país.

Ontem, Yves Gambier, na sessão plenária da conferência Challenges in Translation, falou sobre o futuro da tradução, não do próximo ano, mas da próxima década; como será o mercado de tradução no futuro e este conceito de futuro não é o dia de amanhã. Estou a sublinhar, se calhar, o óbvio. Mas nos corredores ainda hoje se ouve de que andamos (todos, eu, os meus colegas, os Professores, os investigadores e os alunos) a trabalhar sobre o presente, se tivermos sorte. Se formos francos, o nosso dia-a-dia versa sobre o ontem e a semana passada.

Este sentimento é partilhado por muitos de nós, e não é exclusivo dos professores de tradução.

E, em tempos em que não temos tempo para nada, tirei meia hora para apreciar o rio Douro e pensar sobre a vida e parar de correr atrás.

Yves Gambier disse-nos que não sabe como será o futuro, mas que provavelmente passará por uma reestruturação dos conceitos e dos rótulos que atribuímos à tradução com uma multiplicação crescente das etiquetas de transcriação, localização, transedição e similares.

Pergunto-me para onde corremos?

Segundo tempo

Estou em Vila Real e sinto-me pertencente a uma espécie em perigo de extinção: aqueles humanos que pertencem às Humanidades que entre os corredores empoeirados das universidades lutam. Esta é uma luta que sabemos que já perdemos, que é impossível de vencer, que não tem um prazo porque esse, essa data pela qual se luta, está no passado, foi um ontem. Traduz-se em grande medida como pertence à luta das Humanidades e, portanto, do Homem.

Os alunos não dão por isto, os pais dos alunos não dão por isto e, quero acreditar, os tecnocratas não dão por isto. Vivemos sufocados com a burocracia das avaliações externas, das exigências irrealistas de publicar a um ritmo que não se coaduna com uma evolução científica sustentada (fomentando a profissionalização da publicação em massa) e da abdicação de qualquer tipo de vida fora da academia. A isto junta-se a precariedade. Desenganem-se se acreditam que na academia e nas universidades públicas portuguesas não existe precariedade. O número de professores universitários com contratos temporários anuais ou até semestrais é demasiado elevado. Não há horários, até porque não há horas extraordinárias e muitos, demasiados, não sabem o que é férias. É nestas condições que se faz ciência com uma paixão e solidez científica que muito me orgulha. Pensar é em si uma profissão que neste espaço semi-extinto muito nos honra.

Terceiro tempo

Chego a Lisboa e nos últimos dias que não tiveram um fim, nestes dias contínuos, recebi e-mails em vómitos de um grupo de trabalho que desistia (Movimento Perpétuo Associativo, Deolinda) de arregaçar mangas antes de começar. Não vou sublinhar a dicotomia de esforços. Não merece a pena sublinhar o óbvio.

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Hoje a chamada que vos deixo é uma chamada para a guerra (numa Sexta-feira Santa): uma guerra com propósitos próprios mas épicos e com armas de trabalho. Não sei qual é a vossa guerra. Não sei pelo que lutam nos dias úteis, mas, espero que entendam sempre isto: ainda que tenhamos dias duros, dias em que questionemos o nosso percurso, os nossos objetivos, a nossa «guerra», os sonhos só se concretizam se arregaçarmos as mangas e lutarmos pelo que queremos. Reforço: não sei qual é o vosso sonho. Pode ser simples ou épico, mas a corrida é demasiado boa para se ficar de fora.

(Obrigada à Professora Teresa Cid e ao Professor Yves Gambier pela inspiração.)

(Auto-)Gestão em tradução

Pegando na primeira frase do artigo da Rita Menezes da semana passada — lembro-vos que a Rita nos falou sobre a análise SWOT — ser tradutor é mais do que apenas traduzir. Esta, de facto, é uma das grandes dificuldades com que os tradutores novatos (e não só!) se debatem. Muito bem! Sabemos traduzir (com maior ou menor competência), mas como gerir tudo o resto?

Cá entre nós esta foi a principal razão pela qual criei este blog há (muitos) anos. Não vamos contar os anos, pode ser? Acabara a licenciatura e tinha ingressado numa pós-graduação de especialização em tradução. A informação era tanta que me sentia perdida e não sabia para onde me virar, nem como conjugar tudo o que tinha para fazer e aprender. Esta sensação quase que não desaparece ao longo dos anos. Há sempre muito para aprendermos, pouco tempo para o fazer e tanto para gerir. Este é e continua a ser um dos meus grandes desafios.

O que fazer, então? Ficam aqui algumas pequenas dicas para organizarem o vosso dia-a-dia quer estejam a começar, em fase de “skyrocket” ou de “manutenção”.

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1. De manhã, enquanto estou a beber o meu primeiro café (encharcado em leite de soja!), eu olho para a agenda e planeio o meu dia. Este passo é fundamental e é um procedimento normal entre os empresários altamente produtivos. Não acreditam? Googlem!

2. Uma das tarefas essenciais que está sempre na minha lista é responder a todos os e-mails prioritários e gerir a faturação. Porquê? Primeiro, porque se não mantenho o meu e-mail sob controlo, no espaço de uma semana a lista de e-mails que tenho para responder chega rapidamente à centena e torna-se incontrolável. Segundo, porque um dos meus pontos fracos é manter a faturação em dia. Portanto, o que podem tirar disto? Adicionem sempre à vossa lista de coisas a fazer aquilo com que se debatem mais. A solução para tudo na vida é encarar as nossas dificuldades de frente!

3. No final do mês, sem falta, olho para a agenda do mês anterior e tento perceber o que correu bem e o que correu mal. É simples e posso fazer isto ao fim de semana numa esplanada.

4. De seguida, olho para o mês seguinte, estabeleço metas e checkpoints e tento implementar medidas para contornar o que correu mal. Pode ser algo tão simples como sair mais vezes com as amigas ou pegar de novo naquele livro ou marcar na agenda tempo precioso para escrever a tese. Lembrem-se que muito provavelmente já fazem isto mas apenas no final do ano. Eu percebi que — pelo menos para mim — pensar nos meus objetivos para um ano inteiro é muito menos realista do que pensar nos objetivos mês a mês. Assim, não tenho a desculpa de que ainda tenho muito tempo até ao final do ano para fazer não sei o quê. Sabemos muito bem que esse dia nunca chega. Não, se é para fazer que se faça. (Isto faz-me lembrar uma música dos Deolinda!)

5. Versatilidade é a palavra chave. Este ponto é um dos mais importantes para mim. Se por alguma razão eu não consigo fazer uma, duas ou todas as tarefas a que me propus não é e não pode ser motivo para deixar de planear ou para não acrescentar as mesmas tarefas ao dia seguinte. Também não quer dizer que seja desorganizada. Se um cliente ligou e precisa de uma tradução urgente e tenho de parar o que estava a fazer, a minha lista de tarefas fica para trás. Não faz mal! Esta profissão exige adaptabilidade. Há que aceitar isso com calma.

Quais são os vossos truques para se organizarem? Partilhem as vossas checklists!

Por fim, lembro-vos que a formação em gestão de projetos de Marco Neves começa a 14 de março na FCSH e é um curso livre.

João Roque Dias: “O Tradutor, o Cliente e o Dinheiro de Ambos”

João Roque Dias:

“O Tradutor, o Cliente e o Dinheiro de Ambos”

 Por: Alexandre Santos*

Habitualmente, quando se pensa em conferências ligadas à área da Tradução, pensa-se em um grupo de académicos a discutir ideias de nomes ligados à área da Teoria. Ou, como tem sido o caso de algumas conferências mais recentes, pensa-se logo que “eventualmente alguém irá trazer o assunto do acordo ortográfico e ficamos aqui até à hora do jantar”. Quando a Professora Susana Valdez anunciou que a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa iria receber, a 19 de Fevereiro, o senhor Engenheiro João Roque Dias para, utilizando as suas palavras, “falar de dinheiro”, era de esperar que este evento acabasse por ser algo de diferente.

Quando cheguei ao edifício ID, pronto para duas horas que me aguardavam mas, ironicamente, sem saber o que esperar, deparei-me com a Dra. Susana Valdez e o Engenheiro Roque Dias à porta do edifício. Um senhor alto, com uma figura séria, mas que imediatamente quebrou o gelo ao perguntar-me “Esta conferência é sobre dinheiro. Trouxe dinheiro, certo?”. Imediatamente sorri, mas ainda não sabia o que me aguardava.

Após se apresentar, o senhor Engenheiro mencionou que já fora convidado pelo Professor David Hardisty, para falar sobre unidades de medida no que toca à tradução a uma turma que, inicialmente se questionava “O que é que eu estou aqui a fazer?” mas que, no fim da sessão, afogaram-no com questões e observações, notando a utilidade destas e a sua má aplicação no mundo da tradução. E começou a sua apresentação com a seguinte frase: “O verdadeiro especialista é aquele que sabe onde pode errar.”

A conferência foi mencionada como sendo a terceira vez que este tópico seria abordado, tendo-o feito pela primeira vez na mesma faculdade em 2008, seguida de outra apresentação em Londres, foi iniciada com a inesperada mostragem de um par de rolos de papel higiénico pretos (rolos esses que prometeu oferecer a quem soubesse responder a uma questão no fim, cumprindo essa promessa de uma forma engraçada). Este exemplo serviu para nos apercebermos e podermos diferenciar entre um serviço (neste caso o papel higiénico, que é um bem essencial) e um mero produto (papel higiénico preto, decorado, que custa o triplo do preço).

Para além deste exemplo, Roque Dias tentou também demonstrar (através de uma comparação chocante com um mundo onde a socialite Paris Hilton decidia ser uma tradutora que prestaria os seus serviços gratuitamente), que o tradutor deve fazer sentir que o seu trabalho é, sem dúvida, um serviço, algo essencial, e não apenas um produto qualquer, pois é algo impossível de armazenar para uso futuro e que é prestado por alguém a mando de alguém. Também clarificou que o nosso tempo é também outro tipo de produto, um bem não-renovável, que é possível comprá-lo mas não renová-lo e que um prazo é a melhor coisa que pode acontecer a um tradutor, pois sem prazos o tradutor simplesmente não vive.

De seguida, procedeu-se à aprofundação da noção de tradutor em termos pragmáticos e de mercado e, principalmente, qual a melhor maneira de definir um tradutor: como um cabeleireiro (aqui ouviram-se uns suspiros de surpresa). Quando se vai cortar o cabelo, sabemos exactamente o serviço que vamos adquirir e o dinheiro que vamos gastar nesse serviço (um valor fixo, ou baseado em horas). A tradução deveria ser exactamente o mesmo, mas o mercado “habituou-se” ao sistema de palavras e deve-se lutar para quebrar esse hábito. Contudo, nunca se deve baralhar um cliente, pois “… um cliente maluco é o nosso maior inimigo.”

A conferência baseou-se principalmente no conceito “Nós é que somos os chefes da nossa vida e nós é que decidimos quanto devemos ganhar como tradutores.” Roque Dias também deu o conselho vital de que nunca se deve fazer um negócio “passar fome” e, comparando um negócio às calorias mínimas necessárias para o corpo humano sobreviver, argumentou que, apesar de se poder ganhar menos que o mínimo sustentável um dia, fazê-lo continuamente iria resultar em falência, apresentando uma proposta de uma taxa horária mínima para sustentar este argumento, com a seguinte fórmula:

 

Quando dei por mim, já se aproximavam as 18 horas, e parecia que nem meia hora tinha passado. João Roque Dias falara de forma tão motivante, acessível e até relaxada, mostrando o quão confortável se sentia com o assunto e, ao mesmo tempo, o quão fortemente defendia as suas posições, que cativara a sala de mais de 40 lugares, que enchera de tal forma que conseguia estar fechado dentro de um círculo pessoas, quer estas estivessem sentadas ou em pé, sempre atentas, a rir-se com exemplos caricatos seus, ou meramente a contemplar as suas escolhas já tomadas, ou até mesmo escolhas futuras. Interagia frequentemente com os membros da audiência, dispensando formalidades e tratando-nos por um confiável “tu”, o que transpirava ainda mais a sua acessibilidade e vontade em motivar. Até mesmo no fim, durante a sessão de questões, mostrou-se confortável e disponível para qualquer questão, não discriminando entre o aluno de primeiro ano, que provavelmente ainda não tivera o seu primeiro contacto com a prática da tradução, e a tradutora, certificada e formada, com vinte anos de experiência.

Em suma, foram duas horas da minha vida imensuravelmente rentáveis. Posso não ter ganho um único cêntimo físico desta conferência “sobre dinheiro”, mas todos os conselhos, exemplos e tópicos abordados valerão possivelmente milhões de euros, para todos os que decidirem seguir as palavras de João Roque Dias. Mas, tal como este afirma: “Explicar preços por palavra a um cliente directo é como explicar linguística a zebras.

 

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Alexandre Santos é Tradutor Freelancer desde 2011, com experiência em tradução académica, principalmente de artigos científicos. É licenciado em Tradução (Inglês/Francês) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde é actualmente mestrando em Tradução – Área de Especialização de Inglês. Tem também publicações na área da Literatura e Cultura Norte-Americana, e pesquisa nas áreas da Linguística e dos Estudos de Tradução. Para mais informações visite: http://pt.linkedin.com/pub/alexandre-santos/78/2b0/83

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Para descarregar a apresentação do Eng. Roque Dias: http://bit.ly/1jMroe4

X Jornadas Científicas y Profesionales de Traducción Médica, Vigo, 3, 4 e 5 de abril de 2014

A pensar em ir às X Jornadas Científicas y Profesionales de Traducción Médica que terão lugar em Vigo de 3 a 5 de abril deste ano. Para quem se interessa por tradução médica e por conferências com abordagens profissionais esta pode ser uma boa aposta para este ano. Do programa destaco a comunicação de Fernando Navarro: Lenguaje médico: It’s all Greek to me! (griego y latín en inglés y español). O «nosso» Eng. Roque Dias irá apresentar Translator ➨ Client ➨ Money But not necessarily in that order