As palavras do presidente, por Francisco Ferreira

As palavras do presidente, por Francisco Ferreira

Num passado pouco longínquo, numa sala de aulas em Lisboa, um professor de tradução contou-nos, a mim e aos meus colegas de turma na altura, um episódio caricato: certa editora tinha-lhe pedido a tradução de “Bartleby” de Herman Melville. A obra é rica em advérbios de modo e uma das regras de ouro da nossa língua passa por a fazer fluir sem as temíveis palavras terminadas em -mente. A editora preferia que o português da tradução mentisse tão pouco quanto possível e o professor queria fazer as coisas contrariamente à vontade da editora – o professor acreditava que os advérbios de modo, e a sua repetição ao longo da obra, faziam parte do esqueleto da história. Se o leitor norte-americano pôde ser confrontado com tantos advérbios, porque não haveria o leitor português de encarar igual confronto? Se Melville assim o quis para o público norte-americano, porque não expor o público português a algo fora do habitual? Querelas entre tradutor e cliente à parte, evoco aqui esta história como símbolo de um velho dilema do tradutor: a procura e a gestão do equilíbrio entre conteúdo e forma.

Avançando para um passado ainda menos longínquo, mais precisamente nas primeiras horas do dia 9 de novembro de 2016, eu e a Susana Valdez tínhamos o privilégio e a responsabilidade de estar a trabalhar na redação do Público, a traduzir diversos artigos e conteúdos referentes à noite de eleições norte-americanas.

Numa noite longa e surpreendente, o nosso último trabalho foi a tradução do discurso de vitória de Donald Trump. Muita tinta já correu sobre a atípica tarefa que é traduzir as palavras do agora presidente dos Estados Unidos – uma dor de cabeça afirmam uns, quase impossível garantem outros.

O desafio parece estar onde menos o esperaríamos encontrar: na falta de complexidade linguística que o 45.º Presidente dos Estados Unidos emprega, na parca riqueza de vocabulário, no baixo registo de linguagem e no uso intensivo de repetições que colocam o seu discurso ao nível do 3.º ano de escolaridade.

“Enquanto tradutora de discurso político, também tenho o dever de redigir textos legíveis: o que devo fazer então? Traduzir Trump como ele fala e deixar que os leitores franceses se entendam com o conteúdo que lá está? (Sem falar do julgamento que será feito sobre as minhas opções de vocabulário – por vezes o tradutor é culpado pela fraca qualidade do texto.)” afirma Bérengère Viennot numa entrevista ao LA Review of Books.

E este relato de um intérprete alemão de Donald Trump corrobora isso mesmo – se o texto de partida apresenta uma sintaxe desconexa, se o vocabulário é reduzido e se existe um volume elevado de repetições, o que será da qualidade da tradução? E em que posição fica ou deve ficar o tradutor?

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Fonte: European Pressphoto Agency

Esta dicotomia – escrever mal mas ser fiel às palavras do locutor ou escrever bem mas alterar o que o locutor disse, correndo o risco de retratar as suas palavras de forma diferente – dá que falar porque nos estamos a debruçar sobre um dos cargos políticos de maior mediatismo a nível mundial e também porque não estamos habituados a este nível de discurso. Um estudo realizado pela Carnegie Melon University comparou diversos candidatos Republicanos e Democratas e antigos presidentes, concluindo que Donald Trump apresentava o nível mais baixo em termos de vocabulário e o segundo nível mais baixo em termos gramaticais.

Relendo a nossa tradução do discurso de vitória que se encontra no Público, é fácil reconhecer que é um discurso político diferente do habitual, que nos faz estranhar a cada parágrafo, à imagem de quem o profere. Todas as características já aqui referidas refletem-se na nossa tradução porque decidimos que a nossa tradução seria um reflexo do discurso de Donald Trump, a nível do conteúdo e da forma.

Talvez a solução passe por uma nota do tradutor junto à tradução de cada discurso de Donald Trump (embora tal solução não resolva o problema para os intérpretes) declarando que a tradução pretendeu fazer passar o discurso tal e qual foi proferido em inglês, apesar da estranheza que possa causar nos leitores, ou que o mesmo foi adaptado para ser mais legível. Por um lado, corre-se o risco de se alienar os leitores (e o que é mais importante para uma publicação do que os seus leitores?), por outro lado existe o risco de retratarmos uma pessoa como ela não é – mais ou menos eloquente, mais ou menos austera, mais ou menos ofensiva.

Seja qual for a nossa escolha, lembremo-nos de ser conscientes nas nossas opções e relembremo-nos esporadicamente que, entre tantas palavras, cada palavra conta.

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