Uma espécie em extinção — Um post em três tempos

Primeiro tempo

Não estou na baixa de Lisboa a escrever-vos de um café simpático. Desta vez, não. A minha vista é o rio Douro que apesar de hoje estar cinzento é um dos cenários mais bonitos do nosso país.

Ontem, Yves Gambier, na sessão plenária da conferência Challenges in Translation, falou sobre o futuro da tradução, não do próximo ano, mas da próxima década; como será o mercado de tradução no futuro e este conceito de futuro não é o dia de amanhã. Estou a sublinhar, se calhar, o óbvio. Mas nos corredores ainda hoje se ouve de que andamos (todos, eu, os meus colegas, os Professores, os investigadores e os alunos) a trabalhar sobre o presente, se tivermos sorte. Se formos francos, o nosso dia-a-dia versa sobre o ontem e a semana passada.

Este sentimento é partilhado por muitos de nós, e não é exclusivo dos professores de tradução.

E, em tempos em que não temos tempo para nada, tirei meia hora para apreciar o rio Douro e pensar sobre a vida e parar de correr atrás.

Yves Gambier disse-nos que não sabe como será o futuro, mas que provavelmente passará por uma reestruturação dos conceitos e dos rótulos que atribuímos à tradução com uma multiplicação crescente das etiquetas de transcriação, localização, transedição e similares.

Pergunto-me para onde corremos?

Segundo tempo

Estou em Vila Real e sinto-me pertencente a uma espécie em perigo de extinção: aqueles humanos que pertencem às Humanidades que entre os corredores empoeirados das universidades lutam. Esta é uma luta que sabemos que já perdemos, que é impossível de vencer, que não tem um prazo porque esse, essa data pela qual se luta, está no passado, foi um ontem. Traduz-se em grande medida como pertence à luta das Humanidades e, portanto, do Homem.

Os alunos não dão por isto, os pais dos alunos não dão por isto e, quero acreditar, os tecnocratas não dão por isto. Vivemos sufocados com a burocracia das avaliações externas, das exigências irrealistas de publicar a um ritmo que não se coaduna com uma evolução científica sustentada (fomentando a profissionalização da publicação em massa) e da abdicação de qualquer tipo de vida fora da academia. A isto junta-se a precariedade. Desenganem-se se acreditam que na academia e nas universidades públicas portuguesas não existe precariedade. O número de professores universitários com contratos temporários anuais ou até semestrais é demasiado elevado. Não há horários, até porque não há horas extraordinárias e muitos, demasiados, não sabem o que é férias. É nestas condições que se faz ciência com uma paixão e solidez científica que muito me orgulha. Pensar é em si uma profissão que neste espaço semi-extinto muito nos honra.

Terceiro tempo

Chego a Lisboa e nos últimos dias que não tiveram um fim, nestes dias contínuos, recebi e-mails em vómitos de um grupo de trabalho que desistia (Movimento Perpétuo Associativo, Deolinda) de arregaçar mangas antes de começar. Não vou sublinhar a dicotomia de esforços. Não merece a pena sublinhar o óbvio.

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Hoje a chamada que vos deixo é uma chamada para a guerra (numa Sexta-feira Santa): uma guerra com propósitos próprios mas épicos e com armas de trabalho. Não sei qual é a vossa guerra. Não sei pelo que lutam nos dias úteis, mas, espero que entendam sempre isto: ainda que tenhamos dias duros, dias em que questionemos o nosso percurso, os nossos objetivos, a nossa «guerra», os sonhos só se concretizam se arregaçarmos as mangas e lutarmos pelo que queremos. Reforço: não sei qual é o vosso sonho. Pode ser simples ou épico, mas a corrida é demasiado boa para se ficar de fora.

(Obrigada à Professora Teresa Cid e ao Professor Yves Gambier pela inspiração.)

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