Algumas reflexões sobre a tradução de empowerment

Autonomia ou poder?

Algumas reflexões sobre a tradução de empowerment

Maria Eduarda de Macedo

Direcção-Geral da Tradução — Comissão Europeia

Estava eu sentada frente ao televisor, aguardando com a paciência possível a segunda parte do

telejornal da noite, quando a voz off da locutora do programa «A ONU em acção», vinda dos confins

de um qualquer país africano, rematou a explicação dada aos telespectadores sobre a relação entre

microcréditos e melhoria das condições de vida das populações com uma frase linda e lapidar sobre o

papel da ONU na promoção da autonomia das mulheres.

Dei um salto na cadeira e quase se me encheram os olhos de lágrimas. E porquê? Porque «autonomia»

é uma das palavras de que eu mais gosto. Se eu pudesse surripiar uma palavra do dicionário e

guardá-la só para mim, era esta. A segunda razão é, bem sei, do domínio da mais pura especulação. É

que, embora eu não tivesse tido obviamente acesso ao original inglês, estou em crer que o termo nele

utilizado fosse empowerment, traduzido correctamente por «autonomia» e não por outra coisa

qualquer e menos ainda pelo famigerado «empoderamento».

Em suma, um verdadeiro milagre, o que não é despiciendo no contexto em causa, a saber, o das

medidas especialmente dirigidas às mulheres que alguns querem empoderar à viva força, mesmo

quando elas, coitadas, apenas anseiam por poderem dar de comer aos filhos e pensar pelas suas

próprias cabeças (se não lhas cortarem entretanto).

E se tivéssemos sido nós a traduzir o guião do dito programa? Teríamos nós ousado fugir à tirania do

empoderamento? Ou limitar-nos-íamos, como bons funcionários que somos, a capacitá-las ou a

habilitá-las.

Não me interpretem mal. É claro que o termo empowerment não tem sido sempre traduzido por

«empoderamento». Por vezes até nem o foi, ou seja, traduziram-no por… empowerment.

«Empowerment» tem sido traduzido — e bem — por responsabilização, capacitação, sensibilização,

habilitação, competência, força, atribuição de competências, poder, poderes, atribuição de poderes,

emancipação (mais uma das minhas palavras de estimação), etc., como se pode facilmente verificar

através de uma consulta rápida das nossas memórias de tradução. Mas raramente tem sido traduzido

por «autonomia», mesmo quando tal opção não só se justificaria plenamente, como seria a melhor,

inclusivamente em domínios que não o das políticas do género.

Por seu turno, uma busca sumária na IATE revela-nos nove fichas empowerment com o português,

quase todas em torno do «empoderamento» e da «capacitação». Outros registos que não

administrativos ou politicamente correctos não mereceram até à data a nossa atenção e,

consequentemente, não foram «iatizados».

Todas as soluções acima evocadas para traduzir empowerment são possíveis. Deixem-me porém

defender a minha dama, a «autonomia», e, já agora, a sua família ou seja, a acção e o processo

concomitantes, «autonomizar» e «autonomização», palavras que os psicólogos, nomeadamente os da

minha geração, usam sem pejo algum e que poucos dicionários registam.

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Obrigada à Tânia por ter enviado este artigo para o meu e-mail.

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