Sobre macacos e amendoins, por Karolien van Eck

Hoje vou falar de valor. Não propriamente de valores (plural) nem de quantias exatas, mas de valor. Do valor do nosso trabalho como – no meu caso – tradutora jurídica freelance, num mercado livre. “Mercado”, porque é regido pela lei da procura e da oferta, em que o preço é estabelecido nesse mesmo contexto. “Livre”, porque não tenho proteção profissional, já que “tradutor” não é uma profissão protegida por qualquer legislação.

Entre muitas profissões, a minha é uma das menos bem vistas e, ainda menos, entendidas. Ah, pois, estrangeira, não é? Insinuando que se ser estrangeiro é um requisito para se ser tradutor. Ser tradutor é ter uma profissão exigente, interessante e versátil. Eu e os meus colegas somos especialistas, não apenas pelo facto de dominarmos muito bem, no mínimo, duas línguas, mas também no que respeita aos setores de mercado em que prestamos os nossos serviços.

Os meus colegas especialistas em tradução na área da medicina dispõem de conhecimentos específicos e especializados que lhes permitem entender textos e conteúdos médicos, decifrar os segredos daquilo que foi reduzido a escrito, bem como as respetivas implicações, podendo de seguida reproduzir esta mensagem complexa numa outra língua, tendo em conta os contextos e as realidades existentes para os falantes dessa outra língua e a respetiva cultura.

Os colegas tradutores técnicos são, por sua vez, logicamente, especialistas na linguagem e nos conteúdos dos textos (técnicos) que aceitam para tradução. E depois, em todas as áreas, há sempre muitos subdomínios.

Eu e os meus colegas prestamos serviços, não vendemos objetos. O cliente usufrui do nosso conhecimento, embora o produto que receba seja “apenas” um papel (e, no caso dos intérpretes, nem isso!). Portanto, não é a qualidade do papel que determina o preço, é a qualidade daquilo que ele contém. Agora, como podemos valorizar e fazer valer esta mensagem, já que, como já disse, “tradutor” não é uma profissão protegida?

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Alguns colegas pensam que o valor do nosso trabalho é determinado por aquilo que o cliente quer pagar. Têm dificuldade em distinguir “aquilo que o trabalho vale” de “aquilo que o cliente quer pagar”. Mas temos de ser nós a determinar aquilo que valemos, de acordo com, por um lado, o que temos para oferecer (conhecimento muito especializado, qualidade, rapidez, …) e, por outro lado, aquilo que — simplesmente — queremos receber na nossa conta no final do mês.

Temos de ter em mente que, por sermos freelancer, aquilo que ganhamos com um trabalho que nos é adjudicado tem de recompensar muito mais do que o tempo que gastámos na respetiva tradução. Pois, primeiro, tivemos de chegar ao cliente, convencê-lo a adjudicar-nos o trabalho, fazer um orçamento, colocar questões, fazer pesquisa, etc. E depois do trabalho entregue, fazer toda a parte financeira, até efetivamente receber e, de seguida, ainda declarar os nossos rendimentos.

Além disso, temos de considerar que há muitos dias num mês (e num ano) que não trabalhamos; as horas de descanso são para se respeitar, pois uma semana de trabalho habitual não tem mais de 40 horas, e há as férias em que temos de pensar, como toda a gente.

Às vezes não podemos trabalhar, porque adoecemos ou temos familiares que precisam do nosso apoio e presença físicos. E ainda não falei das despesas extras que temos, por sermos freelancer, por exemplo, com seguros (alguns obrigatórios) e com uma maneira de providenciar o nosso futuro (pois um dia também queremos gozar de uma reforma decente).

Normalmente considera-se que um terço das horas que trabalhamos como (tradutor) freelancer, não são horas faturáveis. Assim sendo, temos de ganhar muito mais nas horas faturáveis!

Muitos colegas no início da carreira pensam que o trabalho deles vale menos do que o trabalho de um tradutor experiente. Não quero discutir se, de facto, vale mais ou menos, mas para o cliente (exigente) o bom resultado deveria ter o mesmo valor. Eu aconselho os meus colegas iniciantes a praticar preços compatíveis com os preços de colegas mais experientes, e investir mais no resultado do trabalho. Por exemplo, através de uma revisão mais rigorosa por um colega mais experiente e/ou um especialista na área. Podem procurar estabelecer parcerias ou um “mentorado” como acontece em muitas profissões.

Portanto, serão os clientes e o mercado em que operamos que devem determinar o valor do nosso trabalho? Não! Somos nós que o devemos determinar e os clientes que “não querem pagar mais que X”, para mim, não são clientes sérios. A qualidade tem um preço. É como se diz em inglês: “if you pay peanuts, you get monkeys”. A última vez que me vi no espelho, ainda não tinha chegado a tanto…

Uma coletânea de short-stories inacabadas. É isto!

Quem trabalha comigo sabe que há anos que escrevo e penso sobre dois problemas principais: o que fazer com a falta de tempo e como organizar melhor a faturação. E é verdade que após estes anos continuo a pensar sobre isto. Ao longo do tempo implementei diferentes soluções, mas esta questão assombra-me periodicamente. Ó, não pensem — os incautos que hoje se depararam com este post e o decidiram ler a pensar que iria falar de uma antologia acabadinha de sair — que sou desorganizada. Pois é que não sou. Como cheguei à minha (apurada… coff coff) organização é fruto de uma «shortíssima» short-story: fiz o First Certificate muito nova na Cambridge e foi o meu querido professor que me ensinou a pensar de uma forma metódica (e a escrever também, vá). Penso e escrevo (ou escrevo e penso, também) por pontinhos (ou seja, tendo em conta 1. e 2. e apesar de 3. e 4. conclui-se 5.). Mas padeço de uma doença ruim: tenho muitas ideias e, por isso, faço muitas coisas e, no meu caso, literalmente as 24 horas não chegam e luto há anos contra o relógio (qual coelho des-enchapelado e desgrenhado — desculpem-me as brincadeiras de língua, estou inspirada com a história das short-stories).

Dito isto, o que me interessa hoje é partilhar-vos duas ideias principais: 1. o meu novo método de organização, e como cheguei ao mesmo, pois 2. as conferências são uma fonte riquíssima de ideias.

Pois foi o que foi dito nas palestras e nas conversas de corredor da última conferência a que fui que cheguei à (não tão) brilhante conclusão desta semana: não há tempo para tudo (eu sei… não é brilhante) e, por isso, temos de arranjar a nossa forma de sermos metódicos para conseguirmos fazer o que realmente queremos (hum, tenham paciência, por favor, que para mim finalmente tudo fez sentido).

Aqui ficam as minhas short-stories das últimas semanas:

1. A Rita Menezes partilha no twitter um infográfico da Anna Vital sobre o Dilema da produtividade e eu finalmente encaixo que tenho de deixar as tarefas pequenas, mas morosas, para o final do dia. No meu caso, responder a e-mails. A partir de agora, dedico uma hora antes do final do dia de trabalho aos e-mails e não a primeira hora (que inevitavelmente se arrastava durante todo o dia).

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2. A Alessia Vonau na Proz.com Regional diz-nos para fazermos uma lista diária de coisas a fazer, mas guardar a lista de coisas feitas para termos a noção da produtividade real do nosso dia a dia. E, mais, no caso dela, ela faz primeiro tudo o que resulta em faturação.

3. A Marta Gama conta-me nesse mesmo dia a caminho de um restaurante que tem um quadro perto da secretária onde tem em post-its o que tem para fazer e o que já fez e que naquela semana — apesar de ter sentido que tinha feito pouco — na verdade tinha muitas pequenas vitórias. E eu finalmente percebo que mesmo quando acho que não fui produtiva, o fui, mas simplesmente deixei-me levar pelas tarefas que têm menos proveito para mim. Ou seja, tenho de começar o dia com as tarefas mais complicadas, mas que têm um impacto efetivo nos meus objetivos.

4. Já a caminho de casa, almoço com uma grande amiga que emigrou para Inglaterra que me diz que mesmo que trabalhe fora de horas, programa o e-mail para enviar as mensagens dentro do horário de trabalho por 1. respeito para com os colegas e  para 2. educar as pessoas que a rodeiam de que o descanso deve ser respeitado. E, eu, meto na cabeça que não posso responder a e-mails a toda a hora, o que simplesmente me retira energia e me dá a sensação de que estou sempre a trabalhar, mesmo quando estou na minha vida privada.

E já está! Se calhar, para vocês, estas short-stories não resultam numa fórmula perfeita de organização, mas consegui — aleluia, irmãos! — o plano diário que hoje considero perfeito. Qual é o vosso? Partilhem-no comigo e connosco pois pode fazer «luz» noutra pessoa.

Nasceu uma associação de tradução — A APTRAD

Em fevereiro nasceu uma nova associação de tradução, a APTRAD, fruto dos esforços de uma equipa de tradutores e dando voz a um sonho antigo da Paula Pinto Ribeiro. Eu pus-me à conversa com a Paula e o resultado é o abaixo.

Valdez: Há quanto tempo tens este sonho?

Paula Pinto Ribeiro: Este sonho aparece quase logo que iniciei o meu percurso como tradutora (1997) e descobri que, para fazer parte de uma Associação, era necessário ter obras publicadas (o que não era o meu caso, dado ser tradutora técnica). Sempre acreditei que as Associações devem ser o porto de abrigo dos profissionais que a integram… e senti que, em Portugal, esse porto de abrigo não existia – quer para quem estava na profissão, quer para quem chegava de novo.

Valdez: Porquê uma associação?

Paula Pinto Ribeiro: A Associação surge porque a Ordem é mais demorada. O sonho é a Ordem Portuguesa de Tradutores e Intérpretes! Senti, no entanto que os passos devem ser dados pisando terra firme debaixo dos pés! Não sou de deixar obras pelo meio e uma Ordem neste momento é um objetivo mais distante e mais moroso de concretizar.

Valdez: O que podemos esperar da associação?

Paula Pinto Ribeiro: Como dizemos no nosso website: Temos como Missão – Valorizar, credibilizar, promover e disciplinar as profissões de tradutor e intérprete, de forma ativa e inovadora.

A nossa Visão – Contribuir para o desenvolvimento profissional dos associados, apoiar a integração no mercado de trabalho dos estudantes de tradução e constituir o principal ponto de encontro no sector.

Apoiados em Valores como – Profissionalismo, inovação, dinamismo, ética, dedicação, confidencialidade, disponibilidade.

Os nossos objetivos:

• promover os mais elevados padrões de qualidade na profissão

• dinamizar e promover diversos eventos nacionais e internacionais

• disponibilizar apoio informático, jurídico e fiscal

• orientar todos aqueles que iniciam o seu percurso profissional

• aconselhar os profissionais e consumidores de serviços linguísticos

• ser a fonte de informação privilegiada sobre os serviços de tradução e interpretação

Valdez: E como nos podemos juntar ao teu sonho?

Paula Pinto Ribeiro: Podem juntar-se a nós todos os profissionais da área da tradução e da interpretação que pretendam contribuir para a credibilização e valorização da nossa profissão, com a língua Portuguesa como uma das suas línguas de trabalho. O nosso website tem disponível um formulário de inscrição online e os nossos contactos estão disponíveis para qualquer esclarecimento adicional que qualquer futuro associado necessite. Pretendemos ser uma Associação próxima e acessível aos profissionais de tradução e interpretação.

Uma espécie em extinção — Um post em três tempos

Primeiro tempo

Não estou na baixa de Lisboa a escrever-vos de um café simpático. Desta vez, não. A minha vista é o rio Douro que apesar de hoje estar cinzento é um dos cenários mais bonitos do nosso país.

Ontem, Yves Gambier, na sessão plenária da conferência Challenges in Translation, falou sobre o futuro da tradução, não do próximo ano, mas da próxima década; como será o mercado de tradução no futuro e este conceito de futuro não é o dia de amanhã. Estou a sublinhar, se calhar, o óbvio. Mas nos corredores ainda hoje se ouve de que andamos (todos, eu, os meus colegas, os Professores, os investigadores e os alunos) a trabalhar sobre o presente, se tivermos sorte. Se formos francos, o nosso dia-a-dia versa sobre o ontem e a semana passada.

Este sentimento é partilhado por muitos de nós, e não é exclusivo dos professores de tradução.

E, em tempos em que não temos tempo para nada, tirei meia hora para apreciar o rio Douro e pensar sobre a vida e parar de correr atrás.

Yves Gambier disse-nos que não sabe como será o futuro, mas que provavelmente passará por uma reestruturação dos conceitos e dos rótulos que atribuímos à tradução com uma multiplicação crescente das etiquetas de transcriação, localização, transedição e similares.

Pergunto-me para onde corremos?

Segundo tempo

Estou em Vila Real e sinto-me pertencente a uma espécie em perigo de extinção: aqueles humanos que pertencem às Humanidades que entre os corredores empoeirados das universidades lutam. Esta é uma luta que sabemos que já perdemos, que é impossível de vencer, que não tem um prazo porque esse, essa data pela qual se luta, está no passado, foi um ontem. Traduz-se em grande medida como pertence à luta das Humanidades e, portanto, do Homem.

Os alunos não dão por isto, os pais dos alunos não dão por isto e, quero acreditar, os tecnocratas não dão por isto. Vivemos sufocados com a burocracia das avaliações externas, das exigências irrealistas de publicar a um ritmo que não se coaduna com uma evolução científica sustentada (fomentando a profissionalização da publicação em massa) e da abdicação de qualquer tipo de vida fora da academia. A isto junta-se a precariedade. Desenganem-se se acreditam que na academia e nas universidades públicas portuguesas não existe precariedade. O número de professores universitários com contratos temporários anuais ou até semestrais é demasiado elevado. Não há horários, até porque não há horas extraordinárias e muitos, demasiados, não sabem o que é férias. É nestas condições que se faz ciência com uma paixão e solidez científica que muito me orgulha. Pensar é em si uma profissão que neste espaço semi-extinto muito nos honra.

Terceiro tempo

Chego a Lisboa e nos últimos dias que não tiveram um fim, nestes dias contínuos, recebi e-mails em vómitos de um grupo de trabalho que desistia (Movimento Perpétuo Associativo, Deolinda) de arregaçar mangas antes de começar. Não vou sublinhar a dicotomia de esforços. Não merece a pena sublinhar o óbvio.

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Hoje a chamada que vos deixo é uma chamada para a guerra (numa Sexta-feira Santa): uma guerra com propósitos próprios mas épicos e com armas de trabalho. Não sei qual é a vossa guerra. Não sei pelo que lutam nos dias úteis, mas, espero que entendam sempre isto: ainda que tenhamos dias duros, dias em que questionemos o nosso percurso, os nossos objetivos, a nossa «guerra», os sonhos só se concretizam se arregaçarmos as mangas e lutarmos pelo que queremos. Reforço: não sei qual é o vosso sonho. Pode ser simples ou épico, mas a corrida é demasiado boa para se ficar de fora.

(Obrigada à Professora Teresa Cid e ao Professor Yves Gambier pela inspiração.)

O frágil equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho — uma história de super-heroínas

Numa semana marcada por tantos eventos que me fizeram repensar nos meus objetivos profissionais e de vida, começo o sábado por vos falar do equilíbrio (frágil) entre a vida pessoal e a profissional.

Esta conversa é patrocinada pelo primeiro fim de semana com cheirinho a primavera deste ano. Não poderia de deixar de estar num dos muitos convidativos cafés da baixa de Lisboa, como já é meu hábito. E como é de equilíbrio de que falamos, vim a pé apreciando o sol e as vistas das belas ruas da minha cidade.

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OK, estou inevitavelmente cansada (muito cansada) e sei que não posso abrandar o ritmo. Não posso porque não quero, diga-se. E é disto que se trata quando falamos de equilíbrio para mim. Ter consciência do que queremos e de como queremos que seja a nossa vida.

Esta semana vi uma das mulheres que mais admiro desmaiar em plena reunião, uma reunião que ela dirigia, levantar-se e continuar com a maior elegância e profissionalismo que a caracteriza. (Não digo que é a mulher que mais admiro simplesmente porque duvido de tudo o que é absoluto.)

Nesta mesma semana uma colega perdeu um cliente por não cumprir o prazo e entregar um trabalho de fraca qualidade porque aceitou demasiado trabalho. Quantas histórias destas já ouvimos?

Entre o meu círculo oiço narrativas no feminino sobre a abdicação de uma história com filhos por se colocar o trabalho em primeiro lugar e outras histórias de despedimentos forçados ou por opção para privilegiar a família, o amor, o sol ou o periquito.

O que podemos tirar disto para as nossas vidas? Abaixo fica a minha lista de sobrevivência desta semana para as super-heroínas que nos lêem. (Peço desculpa aos homens — ou melhor, não peço — hoje escrevo no feminino porque sou mulher, porque a minha vida é rodeada por mulheres e que mulheres elas são!)

1. Aprender a delegar, a subcontratar e a pedir ajuda: quer seja investindo num contabilista ou a distribuírem entre a família pequenas tarefas como ir aos correios ou tratar do pagamento de contas. Se calhar a vossa vizinha e amiga pode, quando for às compras, comprar-vos o café que vos falta. E o vosso primo mais novo — que procura um part-time para depois da escola — pode tratar de pequenos recados, como tratar da correspondência ou digitalizar a faturação.

2. Não esquecer de rever as prioridades e deitar fora todo o lixo que sobra: quer seja a roupa que não vestimos há uma estação ou os comprimidos fora de validade como aquelas 10 tarefas que não nos trarão mais próximas da meta (será que têm de ler e responder a todos os e-mails que recebem da mesma forma? será que podem criar templates de respostas mais comuns?, por exemplo).

3. Hum… A meta? É melhor não pensarmos na meta porque a corrida nunca termina, como sabemos. Há que deixar de pensar que “não faz mal! no próximo fim de semana descanso!” porque esse dia nunca chega. Não pensemos na meta, mas em pequenos objetivos. A nossa vida é um contínuo com poucos «pit stops».

Criem as pausas todos os dias, sempre que o sol brilhe ou apeteça ir chapinhar para a rua à chuva e

4. “avanc[e]mos [com orgulho] ao ritmo de uma formiga asmática carregada de compras” (Black Adder).

Que, mais importante do que tudo, avancemos ao nosso ritmo e porque queremos avançar assim.

Aniquilar sabotadores, por Rita Menezes

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Ser freelancer é, muitas vezes, uma opção de vida; mas esta é uma opção que tem tanto de gratificante como de exigente. Não basta ser exímio na gestão de fluxos de trabalho – efeito “empty inbox” vs. efeito “full inbox”; o freelancer, não raras vezes, vive momentos em que coloca tudo em causa – principalmente ele próprio. Lidar com estas situações implica aprender a tirar partido das contrariedades para saborear os momentos brilhantes.

Indecisões. Haverá algum freelancer que não as tem/teve? Representam evolução, quando delas partem decisões construtivas para o percurso profissional. Dúvidas. Das suas competências, das suas escolhas? Qualquer empreendedor as sente. Perceções. A imagem transmitida é a mais correta, é a que fará conquistar a confiança de alguém?

Fórmulas mágicas não exigem. As respostas adequam-se e as soluções encontram-se. Depois de se identificar os momentos de sabotagem (ou seja, o freelancer a sabotar-se a si próprio) e de gerir o stress causado por esses momentos, é necessária a tranquilidade para progredir e evoluir, com sete princípios orientadores:

Estabelecer objetivos
Sejam a curto prazo (concretizáveis num futuro próximo, definindo um de cada vez, para que o foco nesse objectivo seja maior), a médio prazo (ainda que a sua definição dentro de um determinado limite temporal seja mais ambígua, são considerados as pedras basilares dos objetivos a longo prazo) ou a longo prazo (a visão da carreira, que poderá ou não ser variável ao longo do tempo, mas que deverá definir o que é mais adequado num determinado momento).

Manter uma atitude positiva
É possível mudar de cenário (visto que uma perspectiva diferente pode permitir encarar e interpretar algo de outra forma), recordar a razão pela qual se escolheu ser freelancer (uma excelente forma de manter a motivação e a felicidade), visualizar objetivos (e encarar determinada tarefa como um meio para atingir um fim) ou procurar focar-se naquilo que é mais agradável (com equilíbrio e variedade).

Desenvolver competências
Construir permanentemente o currículo; frequentar formação/workshops não só acrescenta valor, mas também melhora a qualidade do trabalho. A confiança nas competências permite ganhar ou aumentar a confiança para obter e apresentar melhores resultados.

Não fazer comparações com os outros
Não confundir com benchmarking (um processo de pesquisa das melhores práticas). As comparações poderão ser pouco realistas ou injustas. Reconhecer e identificar o trabalho da concorrência é algo proveitoso; a preocupação com aquilo que a concorrência faz será uma perda de tempo e um foco de ansiedade.

Reconhecer o seu percurso individual
Há dias bons e há dias menos bons; é impossível agradar a todos; e raramente se consegue atingir a perfeição. Mas mostrar gratidão por todas as vitórias pessoais, pelas experiências positivas e pelas oportunidades aproveitadas é fundamental.

Tomar decisões de forma atempada
Dezenas de decisões são tomadas diariamente, todas com consequências. Mas a tomada de decisões é, algumas vezes, protelada porque se ouvem demasiadas opiniões ou porque falta coragem para as tomar. Decidir permite seguir em frente.

Aceitar que se erra
Por muito talento que se tenha, muitas vezes cometem-se erros; alguns são fáceis de corrigir, outros nem por isso. O erro faz parte do percurso do empreendedor e um dos segredos do sucesso é assumir a sua responsabilidade e aprender com esse erro.

Interiorizar estas noções leva o seu tempo e poderá ser importante a partilha de ideias e soluções para encontrar respostas fora da esfera individual. Mas o caminho a percorrer implica também melhorar a eficácia e a produtividade, aprender a superar desafios e encontrar o equilíbrio vida pessoal-vida profissional.

Se a atitude positiva relativamente à vida e à profissão pode ser claramente benéfica para o freelancer, conhecer os seus limites e estar disposto a quebrar as suas próprias barreiras são igualmente passos rumo à excelência. Com confiança.

A Rita Menezes é tradutora e revisora desde 2002, com licenciatura e pós-graduação em Tradução e mestranda em Marketing Relacional. É membro do grupo de investigação TransMedia Portugal e docente e formadora.